Celular lidera preferência de jogadores de SP, aponta pesquisa, mas jovens da periferia sonham com PC gamer

Celular domina nas periferias, mas sonho dos gamers ainda é o PC Douglas Henrique, de 28 anos, passa parte do tempo livre jogando no computador gamer que monto...

Celular lidera preferência de jogadores de SP, aponta pesquisa, mas jovens da periferia sonham com PC gamer
Celular lidera preferência de jogadores de SP, aponta pesquisa, mas jovens da periferia sonham com PC gamer (Foto: Reprodução)

Celular domina nas periferias, mas sonho dos gamers ainda é o PC Douglas Henrique, de 28 anos, passa parte do tempo livre jogando no computador gamer que montou peça por peça ao longo dos anos. A poucos metros dali, também em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, o estudante Alexandre de Jesus, 16 anos, joga pelo celular e sonha em ter um PC capaz de rodar os títulos que vê na internet. A distância entre as duas experiências ajuda a explicar uma realidade comum entre jovens da periferia paulistana: enquanto o celular se tornou a principal porta de entrada para os games, o computador potente continua sendo um sonho difícil de alcançar. Segundo a Pesquisa Game Brasil 2026, realizada pela SX Group em parceria com a Blend New Research, Go Gamers e ESPM, o smartphone lidera a preferência entre os jogadores de São Paulo, com 41,3% dos usuários. Os computadores aparecem atrás dos consoles e representam 19,7% da preferência dos entrevistados. De acordo com o levantamento, o celular se consolidou como a plataforma mais democrática para o acesso aos jogos, especialmente entre pessoas de menor poder aquisitivo. Já consoles e PCs exigem investimentos mais altos em equipamentos, acessórios, manutenção e, em alguns casos, assinaturas de serviços. A pesquisa foi feita online, em território nacional, e consultou 7.115 pessoas entre 5 e 13 de março de 2025. Douglas conseguiu montar o próprio computador gamer ao longo dos anos e hoje revisita clássicos que marcaram sua adolescência. "Adoro reviver clássicos que me marcaram, como Castlevania: Symphony of the Night e Final Fantasy VII. Também sou fã dos jogos da From Software", conta. Ele joga League of Legends desde 2011, antes mesmo da criação do servidor brasileiro do jogo. Para montar seu computador gamer, Douglas precisou comprar as peças aos poucos. Em 2023, o investimento chegou a cerca de R$ 4.250 apenas no computador, além de aproximadamente R$ 1.400 gastos com periféricos, como monitor, suporte articulado e caixa de som. "Acredito que hoje seja quase inacessível para quem não puder investir de forma parcelada, comprando peça por peça ao longo dos meses. Quando montei o meu, havia menos taxas de importação, e os componentes eram mais baratos. Desde então, a memória RAM e os SSDs tiveram aumentos expressivos de preço, impulsionados, em parte, pela alta demanda da inteligência artificial", afirma. Alexandre conhece essa dificuldade do outro lado. O estudante passa parte do tempo livre jogando em um celular avaliado em cerca de R$ 1.200. Entre os títulos favoritos estão Brawl Stars, eFootball e GTA San Andreas. Apesar disso, ele sonha em ter um computador gamer. "Eu gostaria de ter um PC gamer. É um dos meus sonhos. Meu computador ideal seria um que conseguisse rodar os jogos que eu quero jogar e que me fizesse me divertir", afirma. Segundo ele, o preço dos equipamentos é o principal obstáculo para realizar esse objetivo. "Eu acho que um PC que rodasse os jogos que eu quero custaria entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Infelizmente, o maior obstáculo é o preço e as taxas de importação. Eu já pesquisei várias vezes e hoje está muito distante da minha realidade", diz. As limitações do celular também já fizeram o estudante abrir mão de alguns jogos. "Porque meu celular não roda. Um exemplo é Red Dead Redemption. Tem muitos jogos que vejo na internet e não consigo experimentar", conta. Antes, Alexandre frequentava o Favela Game, projeto social com unidades em Paraisópolis e Heliópolis, também na Zona Sul, que disponibilizava gratuitamente computadores gamers para crianças e jovens das comunidades. A iniciativa tinha como principal objetivo formar equipes profissionais de eSports dentro de algumas das maiores favelas do Brasil, explorando o potencial competitivo dos participantes em diferentes modalidades. Para ele, a experiência foi uma oportunidade de contato com equipamentos que dificilmente teria em casa. O espaço contava com 20 PCs gamers de alto desempenho em cada comunidade e permitia que moradores experimentassem jogos e tecnologias sem precisar arcar com o alto custo de um computador próprio. "A ideia era proporcionar uma oportunidade para as crianças e os adolescentes, uma experiência capaz de ampliar horizontes. Muitos nunca tiveram contato com um computador, e os PCs gamers disponíveis são de última geração. Um PC gamer ainda está longe da realidade financeira de grande parte das famílias da quebrada", afirma Gilmara Oliveira, coordenadora do projeto em Paraisópolis. Ao longo dos últimos três anos de funcionamento, o Favela Game também recebeu recursos por meio de emendas parlamentares destinadas pelo vereador Thammy Miranda. O projeto, no entanto, encerrou as atividades em 2025 por falta de recursos. O interesse pela tecnologia começou cedo para Douglas. Filho de um profissional da área de tecnologia da informação, ele cresceu cercado por computadores e videogames. "Cresci jogando clássicos como Harry Potter, Warcraft III, Half-Life e The Simpsons Arcade. Meu primeiro console foi um Super Nintendo com três jogos: Super Mario, Street Fighter II e Super Bomberman. Lembro da emoção de ligar aquele videogame pela primeira vez. Foi ainda mais especial porque eu sabia o quanto aquilo representava para a minha família. Cresci em Paraisópolis e momentos assim tinham um peso diferente. Era uma alegria que ia além do jogo", recorda. Enquanto um smartphone intermediário capaz de rodar os principais jogos do mercado pode ser encontrado por valores entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil, a montagem de um PC gamer costuma exigir investimento inicial superior a R$ 3 mil. Em configurações intermediárias, o valor pode equivaler a cerca de dois salários mínimos (R$ 3.242). Já computadores mais avançados podem ultrapassar R$ 10 mil, o equivalente a entre seis e dez salários mínimos. Celular é mais acessível para gamers Glória Maria