Baby Doc, furacão e milícias: como era o Haiti quando enfrentou (e venceu) seleção só com jogadores gaúchos em 1973

Seleção Gaúcha de Futebol durante excursão pela América Latina em 1973, quando jogou duas vezes contra o Haiti Reprodução/FGF (Divulgação: Sumulas Tch...

Baby Doc, furacão e milícias: como era o Haiti quando enfrentou (e venceu) seleção só com jogadores gaúchos em 1973
Baby Doc, furacão e milícias: como era o Haiti quando enfrentou (e venceu) seleção só com jogadores gaúchos em 1973 (Foto: Reprodução)

Seleção Gaúcha de Futebol durante excursão pela América Latina em 1973, quando jogou duas vezes contra o Haiti Reprodução/FGF (Divulgação: Sumulas Tchê) O confronto entre Brasil e Haiti, que acontece nesta sexta-feira (19) pela Copa do Mundo, ficou marcado pelo Jogo da Paz de 2004, quando Ronaldo, Ronaldinho e Adriano fizeram 6x0 na seleção caribenha, em meio à intensa guerra civil no país. E essa não foi a única vez que brasileiros e haitianos se enfrentaram em um campo de futebol. Mais de 50 anos atrás, em outubro de 1973, a então Seleção Gaúcha de Futebol, formada por jogadores de clubes do interior do Rio Grande do Sul, fez uma excursão por países da América do Sul, América Central e América do Norte e enfrentou, em menos de uma semana, duas vezes a Seleção do Haiti. Foram uma vitória e uma derrota, ambas por 1x0. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp Na época, o país caribenho vivia um de seus momentos mais sombrios, sob o governo de Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, filho do também ditador François Duvalier, o Papa Doc. Baby Doc deu ares de que tentaria uma aberta, mas o regime acabou sendo o mesmo: afastado de um povo jamais consultado democraticamente, submetido ao controle rígido da milícia dos "tontons macoutes" (os "bichos papões") e vigiado pela velha guarda "duvalerista" chamada "os dinossauros". Meses depois, o Haiti participaria de sua única Copa do Mundo — até a estreia desta sexta. Antes de 2026, a única participação do Haiti na Copa do Mundo havia sido em 1974, quando o país perdeu todos os três jogos que disputou na fase de grupos. Como foi a viagem O jornal Correio Rio-Grandense anunciou, em sua edição de 10 de outubro, que "insistindo em sua ideia, a Federação Gaúcha acaba de conseguir mais oito jogos para a seleção do interior", o que incluía — inicialmente — um jogo contra os haitianos. "Os contatos iniciais foram exitosos e mos próximos dias um empresário chegará a Porto Alegre para sacramentar o assunto. Em principio, a seleção interiorana jogará a 23 e 27 do corrente em Porto Principe, contra as seleções do Haiti e Jamaica, nos dias 30 de outubro, 2 e 5 de novembro na Guatemala e em Honduras, e finalmente a 8, 11 e 15 no México" A viagem serviria para que o selecionado gaúcho participasse de torneios amistosos, e o primeiro seria um triangular contra as seleções de Haiti e Jamaica, além do Deportivo Cali, clube da Colômbia. Por conta de um furacão que atingiu a Jamaica, a partida contra a seleção daquele país foi cancelada, e o RS jogou duas vezes contra o Haiti. Naquele ano, uma série de ciclones tropicais atingiu países da região, como México, Estados Unidos, Cuba e Bahamas. "A Seleção do Interior já está praticamente escalada e a única dúvida para o treinador Aparício Viana e Silva continua sendo a meia-cancha. Pio só se integrou ontem à delegação e talvez não tenha condições para jogar esta partida. Franzede deverá ser mantido, formando o trio de meia-cancha com Zico e Neca", dizia o jornal Zero Hora de 23 de outubro, antes da estreia contra o clube colombiano. De acordo com o jornal, o treinador "deixou Porto Alegre bastante preocupado com a falta de entrosamento dos diversos setores do time", mas já tinha a equipe escalada: Hugo; Valdir, Vlamir, Ciro e Humberto; Frazão, Zico e Neca; Leivinha, Selmar e Décio, todos jogadores de clubes do interior do RS, como Ypiranga, de Erechim; Gaúcho, de Passo Fundo; e São Luiz, de Ijuí. Com o empate em 0x0 na estreia, a seleção gaúcha "conseguiu uma boa colocação no torneio, alcançou também muitos elogios, e agora existe a perspectiva de uma boa arrecadação, para o jogo do dia 27, contra a seleção do Haiti", segunda a Zero Hora do dia seguinte. O primeiro confronto entre RS e Haiti foi de vitória dos haitianos no Estádio Silvio Cator, na capital Porto Principe. No segundo, os gaúchos devolveram o placar, com gol de Décio. Documentos obtidos pelo site História do Futebol com o pesquisador Marlon Krüger Compassi dão conta de que o prêmio para cada atleta gaúcho foi de U$ 40, além de um churrasco assado pelo massagista Pacheco, do Grêmio Esportivo Bagé. A viagem pela América Latina ainda renderia uma derrota e uma vitória contra o México e vitória contra Guatemala. Comentaristas projetam o jogo do Brasil com o Haiti Histórico de Brasil e Haiti tem 7x1 e Jogo da Paz Seleção brasileira enfrentou Haiti em amistoso "Jogo da Paz", em 2004 Arquivo CBF Brasil e Haiti se enfrentaram três vezes na história. A última delas foi na Copa América de 2016, quando a Seleção aplicou 7 a 1 nos haitianos, que terminaram a competição sem pontuar. Antes, no primeiro amistoso entre os dois países, em 1974, o Brasil fez 4 a 0, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Já em 2004, a Seleção visitou o país da América Central para um amistoso beneficente, chamado Jogo da Paz, com vitória do Brasil por 6 a 0. VÍDEOS: Tudo sobre o RS